Crônicas de quinta ─ Saudade
Crônicas de quinta → O por-do-sol em minha porta

Os sons dos carros

Das vozes

E das chamas dos isqueiros são interrompidos

É o chamado

Vejo-a parada em minha porta

Sorrindo

Cabelos ao vento

O piercing dela refletindo a luz do pôr-do-sol

Ela está reluzente como se tivesse sido banhada a ouro

Fortes chamas parecem tocar o meu corpo

É o seu sorriso que me aquece por completo

Ilumina-me

Um sorriso meigo e simplesmente sincero

Os olhos azuis dela estão da cor do céu nesse exato momento

Eles me hipnotizam

Sinto-me ridículo por não saber o que ela pensa

Cair no abismo

Mergulhar no submundo que é a mente feminina nunca me pareceu tão aterrorizante assim

Até agora

Ela apareceu como sendo o ato final da minha maturidade

E a pobre mulher nem percebe isso

Quando eu estava mais perdido

Ela me encontrou

Liberou o mal de mim

Se eu pudesse fazer por ela o que nunca fizeram por mim

Eu faria

Pergunto-me o porquê disso

Não há resposta clara

Apenas um turbilhão de pensamentos explodindo em minha mente

E sem nenhum nexo até o momento

Talvez eu não saiba amar

A noite cai

Fria

Saio com meus companheiros de taberna

Uma névoa envolve nossos passos

Vamos a todos os lugares imagináveis em uma pequena cidade

Nenhum tem aquilo que esperávamos encontrar

Compro um trago com o pouco dinheiro que recheia meus bolsos

Dinheiro amassado assim como os pensamentos e as folhas de rabiscos de um bêbado

Em casa a loucura me faz companhia

Sinto-me em um bar de Blues em New Orleans na década de 40

Abro a janela

Observo a noite

Encoberta pela neblina

Acendo meu último cigarro

Tomo meus goles

Sentado

Olho fixamente para frente como se estivesse olhando fundo nos olhos daquela garota

Loucura

Esse me parece ser o lado bom da loucura

O lado sonhador

Inocente

Toda loucura é sonhadora

Não é como aquela loucura que se aproxima aos poucos

Em uma cadeira de rodas e começa a rir da sua cara

Uma risada frenética

Perturbadora

Dando o tom a um cínico sorriso

Não

Essa loucura a qual estou recebendo um abraço embriagado agora não está de cadeira de

rodas

E muito menos ri da minha cara

A loucura que me pertence no momento é simplesmente

Acolhedora

Toda loucura tem seu lado acolhedor

Sinto-me bem como há muito tempo não me sentia

Um bêbado andando na lua

Um viciado

Viciado nessa sensação de estar bem consigo mesmo

Saber que aquele jamaicano magricelo com dreads no cabelo estava certo quando cantava que

tudo iria dar certo me deixa aliviado

Estou há vontade

E esperançoso porque não

Meus instintos se contorcem

Fortes

Avisam que é hora de parar

Dar um tempo a si mesmo

Pois as verdades do mundo começam a gritar

Sem cigarros

Sem bebidas

Ambos acabaram

Não sinto a falta deles

Mesmo que estivesse sentindo

Cigarros eu encontro em qualquer esquina

Já certas conversas

Palavras que façam sentido

E uma garota que ilumine seu fim de tarde

Eu lhes garanto que não.


  


Crônicas de quinta → O Triste Fim de um Hábito/Lugar

Mary chegou à cidade com o coração quebrado e sua calcinha pelos joelhos
Conheceu o mexicano que se dopava com gasolina e fumava sua erva em um cachimbo feito da mais bela árvore
Eles primeiramente entrelaçaram olhares e depois as pernas
Acabaram indo morar juntos no apartamento do 14° e ultimo  andar

Estavam bem, ela começou a se dopar também e eles assistiam filmes e ficavam em transe olhando os quadros da parede por horas e horas
Às vezes Mary descongelava o que viria a ser o jantar

Havia uma coruja

Eles tinham um casal de amigos que volta e meia apareciam com suas frustrações embaladas em um fardo de cerveja achando que o mexicano era algum tipo de guru psiquiatra que iria lhes mostrar o caminho “certo”.
E o mexicano até gostava disso, se sentia melhor, superior como o xamã psicodélico Morrison dos anos 60

Eles quatro eram quem podiam ser
Era difícil tocar as coisas, mas funcionou por alguns meses,
A coruja morreu devorada pelo gato Trend que tomou o seu lugar

Mary cuidava do lugar quando dava um intervalo do galão
e o mexicano Manuel conseguiu um emprego na ferrovia.

Mary sempre deixava o cachimbo pronto para Manuel
Colava os seus sapatos desgastados como se estivesse colando o seu coração,

Então um dia Manuel retornou para casa e ela havia sumido
Sem discussão, sem bilhete, apenas sumira, levando todas as roupas, quadros e o até o galão
Manuel sentou-se junto à janela e olhou para a rua
Com a boca escancarada, seca
Como se esperasse ela voltar

Ficou ali por 3 dias e não foi ao trabalho na manhã seguinte nem na outra e nem na outra, sequer ligou para avisar
Perdeu o emprego
Primeiro cortaram a luz, depois a água
Sem fósforos para iluminar o lugar vazio
a geladeira vazia

Preso por dirigir embriagado, no julgamento se confessou culpado e sorriu para a juíza que o liberou após 3 dias e 2 noites

Pensava em começar a se prostituir, foi para o imundo banheiro de esquina que servia de ponto

Um cara se aproximou;
Alto, moreno, barba por fazer
Olharam-se nos olhos
Manuel puxou seu canivete
O homem então abriu os braços na forma de um “C”
Manuel congelou o olhar naquela figura e então percebeu quem era
O homem confirmando disse - Hey sou eu….. Seu irmão.

Mudou-se do velho apartamento junto com o gato
Levou sua carcaça e foi viver com seu irmão
Os dois enchiam a cara de vinho barato todas as noites
E falavam sobre o quão terrível era a vida e as mulheres

Manuel jamais voltou a fumar aquele cachimbo porque Mary sempre dizia como ele ficava bonito com ele na boca
Manuel nunca mais foi o mesmo
Assim como a coruja
Alguém havia tomado o seu lugar.

  


Crônicas de quinta → Vômito

Porcaria!

Se tudo continuar assim temo que o tempo se acabe. Estou sendo vitima da minha própria armadilha, a certeza de ter o controle acabou.

Eu acreditava ter tudo e vejo que não sou nada.

Em certas noites acabo me tornando refém do descontrole, abuso da bebida e ela cobra o seu preço fazendo com que eu machuque sentimentalmente e até fisicamente quem eu mais gosto. Sinto-me estúpido deixando que ela tome o controle da minha mente e mãos. 

Eu não agüento mais minha própria mente.

Eu era capaz de brincar com os sentimentos das mulheres, me sentia capaz de enganá-las, porém agora está claro e percebo que estou apenas enganando a mim mesmo.

A verdade foi cuspida na minha cara.

Declaro-me para a noite, mas agora ela me deixa com medo receio de que toda vez que eu enfrentá-la sairei perdendo e voltarei para casa envergonhado de ter sido derrotado.

Espero não ter estragado tudo, espero que não se canse das minhas desculpas.

Meu copo está cheio de lágrimas.

Quero alguém que resguarde o meu sono.

Quero ajuda. 

Não tenho condições de oferecer-lhes nada em troca, exigências são demais para mim.

Não estar bem consigo mesmo é aterrorizante, tenho vergonha de mim.

Estou me apagando sozinho.

Perdendo-me.

Fazendo com que as pessoas se afastem, perdendo encanto, vigor.

Não consigo enxergar através do meu quarto. Minha ilha.

A pressão interna está sendo demais para mim, quando voltarei a me sentir legal?

Preciso que aquela pomba branca venha pousar na minha janela.

O homem com coragem para declarar-se para duas mulheres na mesma noite agora sofre e delira sozinho envolto pela amedrontadora madrugada. 

Entre os dentes segura os lábios para que não diga nada.

Meu céu está pesado demais.

Hey senhora, tirai esse peso do meu coração.

Coração que bombeia vinho em vez de sangue.

Eu estou falando com você.

Poderei encarar você de novo? De cara limpa, sem manipulações.

Consegue enxergar através das palavras?

Quando você enxergará através do meu túmulo?

Quem não vacila mesmo já se sentindo derrotado?

Quem já perdido nunca é atormentado pelo desespero?

Vista a sua roupa o dia já clareou.

Preciso comer.

Eu não te encostarei minhas mãos bêbadas.

Estou de saco cheio, preciso me consertar.

Empreste-me as suas ferramentas.

Você me fez ser assim.

Quando a loucura me abraçar sutilmente se afaste, pois já terei companhia para levar para a cama.

Abrace-me.

Penso, sentado sobre um monte de merda que eu mesmo fiz.

Acabou.

O desabafo saiu como um vômito. 

  


Crônicas de quinta → O amor?

Necessito por algo no papel, mas talvez isto seja somente um desperdício, assim como todo o amor que já dei a outras pessoas na minha vida.

E o amor?

Doença contagiosa assim como esta maldita enfermidade que me ataca. O melhor amor é como o café, instantâneo.

O amor?

Me queima por dentro como a aguardente que estou tomando.

O amor?

Faz-me chorar e resmungar como meu cachorro cego e surdo está fazendo agora.

O amor?

Derrete-me rápido como um cubo de gelo dentro de um copo de Whiskey.

O amor?

É vagabundo!!! Ele é hipócrita, é falso, é mentiroso, é alcoólatra.

O amor?

É bobo, é otário, é infantil.

O amor?

É o fogo de um isqueiro quase vazio.

O amor?

É um Corvette sem freio a 220 km/hr.

O amor?

Pode até ser enterrado, cremado, afogado, mas sempre irá renascer.

O amor?

É tão forte quanto à tinta desta caneta que escrevo esse texto.

O amor?

É como gravidez na adolescência.

O amor?

É como um pulmão cheio de fuligem.

O amor?

É como um canal de TV fora do ar.

O amor?

É como uma garota sentada no seu colo e você não sabe se ela está realmente afim de ti ou se é apenas por amizade.

ISSO ME DEIXA LOUCO!!! O amor é louco.

Mas quem sabe no fundo o amor seja apenas uma dolorosa e grande perda de tempo assim como a maioria dos nossos sentimentos, enfim, eu não sei, só sei que é hora de ir, pois as palavras assim como meu copo de aguardente….. se acabaram.

  

Crônicas de quinta → Até Quando?

Quando você implora por um abraço da sua mãe e ela não percebe

Quando você se sente como uma criança indefesa apesar de ser adulto

Quando as lágrimas sempre contidas escorrem pelo seu rosto sem você poder controlar

Quando a comida que lhe é oferecida não lhe dá apetite

Quando a cerveja que desce pela sua garganta já não faz mais efeito

Quando o programa que passa na TV  não faz sentido nenhum

Quando a desgraça dos outros parece te deixar feliz

Quando você pensa o pior para aquele cara que era considerado o seu melhor amigo

Quando você começa a roubar seus próprios familiares por falta de dinheiro

Quando você não consegue mais escrever do tanto que treme

Quando as pontas dos seus dedos começam a ficar roxas

Quando feridas explodem no seu corpo

Quando a hipocrisia começa a ser tanta que você ri de tanta raiva

Quando o café esfria quando o ultimo cigarro é aceso

Quando todas as luzes da casa se apagam e o único que tenta se manter “iluminado” é você

Quando você percebe estar completamente abandonado mesmo estando rodeado de pessoas

Quando você se distrai e perde o raciocínio

Quando é preciso dar um tempo para esfriar os pensamentos

Quando os remédios não fazem mais efeito

Quando o blues é a única musica que faz sentido

Quando o diabo sussurra no teu ouvido e diz que te espera de braços abertos

Quando blues e diabo se unem

Quando o diabo toma a forma que quiser

Quando você não tem controle sobre seus pensamentos

Quando você deita a cabeça no travesseiro, junta as mãos e não consegue dormir

Quando você tem medo de dormir

Quando a loucura está presente

Quando você sente a essência estranha do que é a morte

Quando a mulher que te é oferecida vai embora

Quando a amiga que você quer como amante te ignora

Quando a angustia entala na sua garganta

Quando o destino te mostra o caminho errado

Quando você bobo segue esse caminho

Quando todas dizem que você é como os outros

Quando você pensa um pouco e concorda com elas

Quando a estrada chega ao fim

E quando você pensa no que não tem que pensar

Quando… Até quando?